domingo, 5 de fevereiro de 2012

Subvivência

Tóquio, 1:44 AM, 6ºC.

Acabo de voltar de uma caminhada rápida em busca de comida. A cidade tá até mais quente do que nos últimos dias, quando tava chegando a -1ºC à noite. Não tenho o costume de sair tão tarde pra comer e, quando o faço, geralmente não vou tão longe quanto fui hoje, mas meu corpo praticamente exigiu que eu me mexesse e se afastasse do magnetismo do meu futon.
Passei o dia inteiro sem fazer absolutamente nada. Cheguei às 5am da rua, dormi, acordei às 11h, achei que não tinha dormido o suficiente, dormi mais, acordei às 16h, desisti de ir para a faculdade porque já estava tarde demais, fiquei assistindo coisas no computador, orbitando em torno das abas do browser, vendo receitas de culinária japonesa, baixando coisas que tavam faltando no computador formatado há pouco. Nada. Nada de útil, nada que vai fazer diferença no meu dia amanhã, nada de que eu vá me orgulhar, nem nada que me deu prazer ter feito. 1 dia completamente perdido.
Parece drama, choramingar por causa disso. É até domingo! Tô no direito absoluto de procrastinar e relaxar o dia inteiro. Mas se eu tô aqui, escrevendo, é porque a coisa chegou a um ponto de incômodo extremo, a ponto de me arrancar da cama a uma da manhã por não aguentar mais não fazer nada. Enquanto eu caminhava ao lado do rio, vendo pessoas embriagadas caminhando na direção contrária, me ocorreu: não estou no comando. Minha vida está sendo governada totalitariamente pela minha preguiça.
Acho que desde que vim de Recife pra cá e meu ritmo de vida mudou, ainda não consegui preencher minha semana de uma forma produtiva. Vou para faculdade todo dia porque foi para isso que eu vim aqui. Saio para beber no fim de semana porque necessito ver meus amigos e me divertir. E muito dificilmente tenho saído disso, no nível rotineiro. Em Recife, eu praticava kung-fu/tai-chi 4 vezes por semana, tinha aula de japonês no sábado, ia trabalhar 5 dias na semana, full time, não bebia e me divertia muito. Havia uma sensação de completude, de estar atacando todas as frentes necessárias na minha vida: saúde, conhecimento, dinheiro, socialização...
Aqui é sempre um diálogo mental acerca de "preciso fazer algum esporte", que é rapidamente calado por argumentos ridículos do governo totalitário da preguiça: "ah, mas tudo é caro aqui", "ah, mas eu quero continuar arte marcial ou fazer outra coisa? Tem que decidir antes de começar". E ver que demoro uns 10% do tempo pra fazer qualquer tarefa fazendo-a, e os outros 90% evitando fazê-la.
Ter saído do futon hoje de madrugada só pra andar e ver a cidade pelo outro lado da janela, quase 2 anos depois de ter chegado em Tóquio, me fez ver que eu ainda, depois de tanto tempo, não sei viver aqui. Estou sobrevivendo... Ou seria subvivendo? Como uma usina em tempo de seca, trabalhando em 20% da minha capacidade?
E o que mais me assusta é que a única coisa que eu tenho que fazer pra retomar o controle é: fazer alguma coisa. Não sofrer a respeito, nem reclamar, nem escrever, só fazer.

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