segunda-feira, 9 de abril de 2012

comforça

Hoje, voltando de bicicleta da faculdade, passei na frente do rio que corre do lado da minha casa e vi as lâmpadas tradicionais japonesas acesas, iluminando a quantidade enorme de sakuras que tem por ali. Ignorei e segui em frente, em busca de comida. Quando cheguei em casa, depois de fazer hora numa lanchonete próxima, a ausência dos meus roommates e a escuridão do apartamento quase me puseram de volta pra fora. E as sakuras não saíam da minha cabeça. Peguei minha camerazinha singela, não pus de volta o casaco e lá fui, me aventurar pelas cerejeiras à noite, cheio de esperança que o contraste das luzes alaranjadas com o espetáculo das flores fosse dar numa coisa inimaginável de tão linda.
Trilha: Feist - Comfort me
Mas como nem tudo são flores (infame), não vi nenhuma lâmpada acesa sequer, exceto as dos postes da rua. E essa ligeira decepção sumiu tão rápido quando chegou, quando eu saí da margem do canal e decidi olhar da ponte. O ar faltou por alguns segundos. Até esqueci que eu podia registrar aquilo com foto. Enquanto isso, um grupo de jovens japoneses sentava na ponte com algum tipo de álcool na mão. Um motoqueiro que tinha que atravessar a ponte parava a moto e, como quem espera um sinal verde, parece se render também à vista hipnótica. Idosos simpáticos também passeiam pelas redondezas. Um casal de gaijin + japonesa. Duas amigas voltando pra casa. Todo mundo ali, buscando algo que as sakuras te dão que é difícil explicar.
Isso me lembra um texto que li nas aulas de japonês quando cheguei por aqui. Ao contrário da maioria dos livros de japonês, o que a gente usava substituía os diálogos vazios por temas sérios e até meio tristes (eles não  sabiam brincar, passavam de trabalho infantil a terremoto). O primeiro texto, intitulado ストレス社会と癒し(grosseiramente, "A sociedade do stress e o conforto"), falava sobre a relação entre o stress gerado pela necessidade de desenvolvimento no pós-guerra por aqui e a popularização massiva das coisas "fofas" e saudáveis. Yoga, aromaterapia, e todo tipo de personagem de olhos brilhantes e bochechas rosadas pareciam receber uma atenção além do normal do povo. O texto defende que a sociedade japonesa, pelo ritmo intenso e estressante, é sedenta por um "conforto", um "alívio"; e que essas coisas trazem uma sensação temporária de relaxamento e libertação do cotidiano, que é tenso...
Acho que hoje à noite, quando saí em busca das sakuras, saí também em busca de conforto. Seria pretensioso da minha parte dizer que esses outros personagens dessa divagação noturna estavam em busca do mesmo. Seria pretensioso sugerir que é isso que é tão fascinante nas sakuras, o conforto que elas trazem. Mas acho que, quando saí de casa, era nisso que eu acreditava. E pena, muita pena dos que, como eu, saíram hoje à noite em busca disso. Depois que o coração desacelera, que o cabeça descansa no braço apoiado na ponte, que a água vem nos olhos, o conforto limpa o coração e as feridas ardem. Meu peito descongestionado e minha alma lavada, ambos espremidos pelas árvores que, de cada lado do rio, parecem tentar se abraçar. As sakuras removem o stress e tornam os problemas cotidianos esquecíveis... mas só pra mostrar onde realmente dói.
Ainda bem que elas só duram uma semana. É muita verdade pra um mortal só.