domingo, 15 de julho de 2012

Meatless Monday

Assim como Téta Barbosa, não tive animais de estimação quando criança. Até passei boa parte da minha vida com um certo medo de cachorros grandes (que não desapareceu, só diminuiu). Lembro de quando estava caminhando sozinho em Tamandaré uma vez, e veio aquele cachorro branco enorme correndo na minha direção. Eu comecei a correr, depois parei porque não parecia inteligente, e fiquei dando voltas em torno do meu próprio eixo, enquanto "Kira", pelo que ouvi dos gritos dos donos, me acompanhava ameaçadoramente. Acho que não acrescenta muito dizer que Kira(キラー) pode ser entendido como "assassino" em Japonês. Até hoje, Márcio tira onda da minha cara por causa de Kira. Obrigado, Kira.
Kira, como eu me lembro


Talvez seja tão engraçada a história porque Márcio teve um cachorro por muito tempo quando criança e sempre falava dele. Minha interação com animais no meu crescimento se resumiu a Pepita, a cachorra da minha tia (piada infame). Pepita tinha quase a idade da minha irmã mais nova, sempre fazia uma festa quando íamos visitá-la. Mas minha relação com Pepita nunca foi muito marcante. Eu não sentia falta de Pepita. Nunca humanizei minha relação com animais e acho que ela nem deve ser humanizada mesmo. Vendo de fora outras pessoas que tem uma relação forte com animais, parece que é algo diferente, algo único que eu não tive ainda a oportunidade de sentir. Uma dessas pessoas é Kaori.
Kaori é uma grande amiga brasileira que chegou aqui comigo no Japão e que faz parte do fantástico grupo "the fantastic four", também composto por mim, Rita e Mauricio. Kaori é vegan. Pra quem não sabe, significa que ela não come, usa ou financia de forma alguma produtos oriundos da indústria de exploração de animais. Pra quem não sabe, Avon, Dove, L'oreal, Unilever e uma grande parte das empresas de cosméticos ainda fazem testes em animais, ou seja, "vegan" significa tentar evitar tudo ou quase tudo que essas marcas produzem. Digo tentar porque é difícil pra caralho. A Unilever por exemplo, é dona de metade do mundo. A pessoa vai lá e compra um produto novo do supermercado que diz que é 100% natural e de uma marca que ninguém nunca ouviu falar. Tcharam: Unilever comprou essa marca. Uns 40% de chance.
Eu demorei um pouco para me decidir sobre o que penso do veganismo. A princípio bate uma admiração cega: Uau, como essa pessoa é forte e consegue viver sem comer nem um queijinho sequer, um copinho de leite (com nescau, pros que são dos meus) que seja. Depois bate a culpa por não estar fazendo o mesmo. Kaori não é pregadora, mas eu sou curioso, faço perguntas, vejo vídeos por aí, leio uns textos. E me sinto mal quando saio do Mac donalds. O momento seguinte é o questionamento, obviamente, porque ninguém gosta de viver com culpa. "mas não somos animais onívoros?", também somos, supostamente inteligentes. "mas nossa inteligência não nos põe no topo da cadeia alimentar?". Enfim, são muitas questões complicadas e que acho que cada um deveria encontrar as respostas por si mesmo. Da minha parte, não sei se abandonar completamente o consumo é a resposta, mas tenho certeza que estamos exagerando. Acho que se não houvesse tanta demanda, não haveria a "necessidade" de superlotação nos matadouros, poderia-se exigir fiscalização e respeito aos animais com mais facilidade. Pelo menos seria um primeiro passo... Acho que os Vegans são os mártires dessa causa. Se todo mundo resolvesse diminuir o consumo, isso ia causar um abalo danado nas estruturas da indústria exploradora. Mas todo mundo não faz isso, a grande maioria não tá nem aí, na verdade. E os Vegans acho que estão aí pra compensar a falta de ação, eles concentram o efeito do que centenas de pessoas poderiam causar com um bife a menos, em um único indivíduo.
Me aproximar da "cultura vegan" me fez notar certas coisas que talvez não perceberia, como minhas refeições parecerem vazias se não tivessem nem uma carninha. Queria me livrar disso, queria que minha escolha de acrescentar carne numa refeição viesse com o peso que devesse vir. Que não fosse o padrão. Há uns meses atrás resolvi aderir ao Meatless Monday, um movimento dos carnívoros(:P) para tentar estimular essa redução que eu acho necessária. Eu confesso que já esqueci algumas vezes e tenho que trocar e botar em outro dia da semana, ou fazer 2 dias pra compensar por ter esquecido, mas em geral tá dando certo. É interessante se por na pele dos vegetarianos e descobrir o quão difícil é simplesmente encontrar um lugar pra comer. Sair de porta em porta, desistindo porque eu não quero almoçar salada de alface... pedir pra remover carne de uma refeição e ver o olhar de "err... É meio difícil..." na cara do garçom. Melhor ainda é a descoberta. Descoberta de pratos, sabores, opções e lugares que eu provavelmente não descobriria, porque as opções com carne estariam na primeira página, ou mais acessíveis. Estou apaixonado pelo hambúrguer de feijão do Freshness Burger. Nunca achei que pudesse gostar do sanduíche de abacate do Subway. (como podem ver, minha vida ainda se resume a fast food). Sinto que estou aprendendo muito.
Ao contrário de Téta Barbosa, a falta de animais no meu crescimento não me fez perder o respeito por eles. Pelo contrário, sou um grande admirador dos defensores dos direitos dos animais. São, em sua maioria, pessoas que não limitam à configuração do seu prato a sua contribuição pro mundo. Gente que pensa no coletivo, seja ele entre iguais de espécie ou iguais de reino. Acho que são representações exemplares do que nós chamamos de seres inteligentes.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

comforça

Hoje, voltando de bicicleta da faculdade, passei na frente do rio que corre do lado da minha casa e vi as lâmpadas tradicionais japonesas acesas, iluminando a quantidade enorme de sakuras que tem por ali. Ignorei e segui em frente, em busca de comida. Quando cheguei em casa, depois de fazer hora numa lanchonete próxima, a ausência dos meus roommates e a escuridão do apartamento quase me puseram de volta pra fora. E as sakuras não saíam da minha cabeça. Peguei minha camerazinha singela, não pus de volta o casaco e lá fui, me aventurar pelas cerejeiras à noite, cheio de esperança que o contraste das luzes alaranjadas com o espetáculo das flores fosse dar numa coisa inimaginável de tão linda.
Trilha: Feist - Comfort me
Mas como nem tudo são flores (infame), não vi nenhuma lâmpada acesa sequer, exceto as dos postes da rua. E essa ligeira decepção sumiu tão rápido quando chegou, quando eu saí da margem do canal e decidi olhar da ponte. O ar faltou por alguns segundos. Até esqueci que eu podia registrar aquilo com foto. Enquanto isso, um grupo de jovens japoneses sentava na ponte com algum tipo de álcool na mão. Um motoqueiro que tinha que atravessar a ponte parava a moto e, como quem espera um sinal verde, parece se render também à vista hipnótica. Idosos simpáticos também passeiam pelas redondezas. Um casal de gaijin + japonesa. Duas amigas voltando pra casa. Todo mundo ali, buscando algo que as sakuras te dão que é difícil explicar.
Isso me lembra um texto que li nas aulas de japonês quando cheguei por aqui. Ao contrário da maioria dos livros de japonês, o que a gente usava substituía os diálogos vazios por temas sérios e até meio tristes (eles não  sabiam brincar, passavam de trabalho infantil a terremoto). O primeiro texto, intitulado ストレス社会と癒し(grosseiramente, "A sociedade do stress e o conforto"), falava sobre a relação entre o stress gerado pela necessidade de desenvolvimento no pós-guerra por aqui e a popularização massiva das coisas "fofas" e saudáveis. Yoga, aromaterapia, e todo tipo de personagem de olhos brilhantes e bochechas rosadas pareciam receber uma atenção além do normal do povo. O texto defende que a sociedade japonesa, pelo ritmo intenso e estressante, é sedenta por um "conforto", um "alívio"; e que essas coisas trazem uma sensação temporária de relaxamento e libertação do cotidiano, que é tenso...
Acho que hoje à noite, quando saí em busca das sakuras, saí também em busca de conforto. Seria pretensioso da minha parte dizer que esses outros personagens dessa divagação noturna estavam em busca do mesmo. Seria pretensioso sugerir que é isso que é tão fascinante nas sakuras, o conforto que elas trazem. Mas acho que, quando saí de casa, era nisso que eu acreditava. E pena, muita pena dos que, como eu, saíram hoje à noite em busca disso. Depois que o coração desacelera, que o cabeça descansa no braço apoiado na ponte, que a água vem nos olhos, o conforto limpa o coração e as feridas ardem. Meu peito descongestionado e minha alma lavada, ambos espremidos pelas árvores que, de cada lado do rio, parecem tentar se abraçar. As sakuras removem o stress e tornam os problemas cotidianos esquecíveis... mas só pra mostrar onde realmente dói.
Ainda bem que elas só duram uma semana. É muita verdade pra um mortal só.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Subvivência

Tóquio, 1:44 AM, 6ºC.

Acabo de voltar de uma caminhada rápida em busca de comida. A cidade tá até mais quente do que nos últimos dias, quando tava chegando a -1ºC à noite. Não tenho o costume de sair tão tarde pra comer e, quando o faço, geralmente não vou tão longe quanto fui hoje, mas meu corpo praticamente exigiu que eu me mexesse e se afastasse do magnetismo do meu futon.
Passei o dia inteiro sem fazer absolutamente nada. Cheguei às 5am da rua, dormi, acordei às 11h, achei que não tinha dormido o suficiente, dormi mais, acordei às 16h, desisti de ir para a faculdade porque já estava tarde demais, fiquei assistindo coisas no computador, orbitando em torno das abas do browser, vendo receitas de culinária japonesa, baixando coisas que tavam faltando no computador formatado há pouco. Nada. Nada de útil, nada que vai fazer diferença no meu dia amanhã, nada de que eu vá me orgulhar, nem nada que me deu prazer ter feito. 1 dia completamente perdido.
Parece drama, choramingar por causa disso. É até domingo! Tô no direito absoluto de procrastinar e relaxar o dia inteiro. Mas se eu tô aqui, escrevendo, é porque a coisa chegou a um ponto de incômodo extremo, a ponto de me arrancar da cama a uma da manhã por não aguentar mais não fazer nada. Enquanto eu caminhava ao lado do rio, vendo pessoas embriagadas caminhando na direção contrária, me ocorreu: não estou no comando. Minha vida está sendo governada totalitariamente pela minha preguiça.
Acho que desde que vim de Recife pra cá e meu ritmo de vida mudou, ainda não consegui preencher minha semana de uma forma produtiva. Vou para faculdade todo dia porque foi para isso que eu vim aqui. Saio para beber no fim de semana porque necessito ver meus amigos e me divertir. E muito dificilmente tenho saído disso, no nível rotineiro. Em Recife, eu praticava kung-fu/tai-chi 4 vezes por semana, tinha aula de japonês no sábado, ia trabalhar 5 dias na semana, full time, não bebia e me divertia muito. Havia uma sensação de completude, de estar atacando todas as frentes necessárias na minha vida: saúde, conhecimento, dinheiro, socialização...
Aqui é sempre um diálogo mental acerca de "preciso fazer algum esporte", que é rapidamente calado por argumentos ridículos do governo totalitário da preguiça: "ah, mas tudo é caro aqui", "ah, mas eu quero continuar arte marcial ou fazer outra coisa? Tem que decidir antes de começar". E ver que demoro uns 10% do tempo pra fazer qualquer tarefa fazendo-a, e os outros 90% evitando fazê-la.
Ter saído do futon hoje de madrugada só pra andar e ver a cidade pelo outro lado da janela, quase 2 anos depois de ter chegado em Tóquio, me fez ver que eu ainda, depois de tanto tempo, não sei viver aqui. Estou sobrevivendo... Ou seria subvivendo? Como uma usina em tempo de seca, trabalhando em 20% da minha capacidade?
E o que mais me assusta é que a única coisa que eu tenho que fazer pra retomar o controle é: fazer alguma coisa. Não sofrer a respeito, nem reclamar, nem escrever, só fazer.