Eu estou ficando cada vez melhor no karaoke. Tá, tá, eu sei que isso não soa muito modesto. Mas, em minha defesa, digo que eu só estou ecoando a reação de outras pessoas quando eu canto. No outro dia, quando cantei Back to Black os meu colegas do laboratório vieram abaixo. Estranho é que, quando conversava com uma colega minha no dia seguinte, ela me disse que notou que eu "só escolhi músicas tristes".
Engraçado, eu nunca raciocinei sobre qual é o critério que eu uso para escolher minhas músicas. Eu tentei tirar isso da minha cabeça mas não consegui. Ficou martelando no meu cérebro "tristes, músicas tristes, tristes, escolhi músicas tristes". Tentei lembrar da lista: I Heard It Through the Grapevine, Have you ever seen the rain, Karma Police, Shiver, Warwick Avenue... Ok, isso é tristeza o bastante. Não faz nenhum sentido. Eu não estou triste. Eu não sou triste. Aliás, alguém me explica, a tristeza é um estado ou uma característica?
Ato falho? Não, não pode ser. Eu não consigo olhar pras fotos na minha parede e ficar triste por fazer meses que não os vejo, fico feliz por ter conhecido tanta gente incrível. Não posso ficar triste porque, depois de tanto tempo, ainda não decidi o tema da minha tese, fico feliz por saber que consegui chegar no doutorado. Não dá pra ficar triste porque meu coração não é de ninguém agora, só fico feliz de, vez por outra, lembrar que sou capaz de amar. É verão agora: eu ignoro o calor infernal, as cigarras e as chuvas torrenciais que chegam sem avisar; adoro o sol, a noite, usar pouca ou nenhuma roupa dentro de casa.
Eu me eduquei a viver Pollyanna muito cedo. Acho que muita gente passa a vida inteira levando na cara e, um dia, aprendi a conviver com a tristeza e decide parar de se lamentar. Eu nunca levei muito na cara, meus amigos. Não sei o que é a morte. Acho que eu parei de me lamentar da vida cedo demais. Por isso que músicas tristes me fascinam tanto, músicas felizes só corroboram o que já me é característico, não acrescentam muito. Mas o que realmente sinto é que há muito além de "alegria" e "tristeza" dentro desse mundo de sentimentos.
Uma vez Kaori me disse, "você distribui muita energia boa por aí". Eu também acredito nisso. Mas parabéns, senhor energia boa, bela seleção de músicas, positividade rolando solta, hein? Acho que me sinto só... Aqui, em cima, nessa terra onde a gente supera as coisas ruins e exalta as coisas boas. Nesse canto onde a gente não se lamenta se não tiver um motivo SÉRIO pra se lamentar. Não tem muita gente aqui comigo. Solidão não é oposta à alegria, nem à tristeza. É outro eixo.
Solidão até me lembra uma música, cuja letra possui o que eu chamo de "o cúmulo da solidão", escrito aí abaixo. Aviso a vocês, é uma música triste:
Summer in the city
I'm so lonely, lonely, lonely
So I went to a protest
Just to rub up against strangers
And I did feel like coming
But I also felt like crying
It doesn't seem so worth it right now