domingo, 7 de agosto de 2011

Pedante que acha que tá bom no karaoke

Eu estou ficando cada vez melhor no karaoke. Tá, tá, eu sei que isso não soa muito modesto. Mas, em minha defesa, digo que eu só estou ecoando a reação de outras pessoas quando eu canto. No outro dia, quando cantei Back to Black os meu colegas do laboratório vieram abaixo. Estranho é que, quando conversava com uma colega minha no dia seguinte, ela me disse que notou que eu "só escolhi músicas tristes".

Engraçado, eu nunca raciocinei sobre qual é o critério que eu uso para escolher minhas músicas. Eu tentei tirar isso da minha cabeça mas não consegui. Ficou martelando no meu cérebro "tristes, músicas tristes, tristes, escolhi músicas tristes". Tentei lembrar da lista: I Heard It Through the Grapevine, Have you ever seen the rain, Karma Police, Shiver, Warwick Avenue... Ok, isso é tristeza o bastante. Não faz nenhum sentido. Eu não estou triste. Eu não sou triste. Aliás, alguém me explica, a tristeza é um estado ou uma característica?

Ato falho? Não, não pode ser. Eu não consigo olhar pras fotos na minha parede e ficar triste por fazer meses que não os vejo, fico feliz por ter conhecido tanta gente incrível. Não posso ficar triste porque, depois de tanto tempo, ainda não decidi o tema da minha tese, fico feliz por saber que consegui chegar no doutorado. Não dá pra ficar triste porque meu coração não é de ninguém agora, só fico feliz de, vez por outra, lembrar que sou capaz de amar. É verão agora: eu ignoro o calor infernal, as cigarras e as chuvas torrenciais que chegam sem avisar; adoro o sol, a noite, usar pouca ou nenhuma roupa dentro de casa.

Eu me eduquei a viver Pollyanna muito cedo. Acho que muita gente passa a vida inteira levando na cara e, um dia, aprendi a conviver com a tristeza e decide parar de se lamentar. Eu nunca levei muito na cara, meus amigos. Não sei o que é a morte. Acho que eu parei de me lamentar da vida cedo demais. Por isso que músicas tristes me fascinam tanto, músicas felizes só corroboram o que já me é característico, não acrescentam muito. Mas o que realmente sinto é que há muito além de "alegria" e "tristeza" dentro desse mundo de sentimentos.

Uma vez Kaori me disse, "você distribui muita energia boa por aí". Eu também acredito nisso. Mas parabéns, senhor energia boa, bela seleção de músicas, positividade rolando solta, hein? Acho que me sinto só... Aqui, em cima, nessa terra onde a gente supera as coisas ruins e exalta as coisas boas. Nesse canto onde a gente não se lamenta se não tiver um motivo SÉRIO pra se lamentar. Não tem muita gente aqui comigo. Solidão não é oposta à alegria, nem à tristeza. É outro eixo.

Solidão até me lembra uma música, cuja letra possui o que eu chamo de "o cúmulo da solidão", escrito aí abaixo. Aviso a vocês, é uma música triste:

Summer in the city
I'm so lonely, lonely, lonely
So I went to a protest
Just to rub up against strangers
And I did feel like coming
But I also felt like crying
It doesn't seem so worth it right now

terça-feira, 24 de maio de 2011

Manifesto Marconi

Semana passada, na aula de "Presentation in English"(pois é, surpresa, eu escolho cadeiras ridículas só pra ganhar crédito), o professor pediu pra que nos juntássemos em duplas e apresentássemos o coleguinha. E mais uma vez revivi a situação (já uma constante aqui) de tentar ensinar a pronúncia do meu nome pra alguma pessoa de um país aleatório. A menina era uma chinesa e me surpreende que com tantas variações de entonação pra sons que deveriam ser o mesmo (ma ma ma ma), ela ainda tenha tido muita dificuldade. E não conseguiu no fim das contas.

É claro que eu não facilito, ensino a pronúncia recifense da coisa, o r soprado, essa fricativa uvular surda (ou seria velar?), quase uma brisa terminal no primeiro entressílabo, mas é assim que tem que ser. Tem paulista demais aqui no Japão pra espalhar o dialeto deles, eu tenho que manter o nosso.

Marconi, Marconi, Marconi, Marconi. Com r de car(em inglês), r paulista, sem r nenhum, proparoxítona, oxítona, cada um fala de um jeito, tanto que quase me sinto parte do maldito léxico chinês. Já me peguei desejando ter um nome mais simples em momentos de fraqueza. Como fazia quando era criança e ouvia as milhares de piadinhas sobre o meu sobrenome. Violinos, por favor: sim, eu sofri bullying por ter um nome que parece um sobre-nome e um sobrenome esquisito de um personagem de um clássico programa mexicano.

Pra você ver, caro leitor, como criança é besta. Agora que eu sou esse pilar de otimismo é que posso ver que eu deveria é ter rido dos Joãos da Silva, dos Pedros Souza, das Marias Carvalho, dos Rafaeis Santos (que de santos não tinham nada). Queridos, eu sou Marconi Madruga. Não preciso passar por processos internos existencialistas nem comprar livro de auto-ajuda pra descobrir que eu sou único e insubstituível: tá registrado em cartório esse fato. Quando os laços de amizade estiverem esquecidos em uma caixa empoeirada na garagem, quem escutar meu nome vai saber que sou eu. E o nome de vocês vai virar som ambiente pro café da manhã.

Queria iniciar um movimento contrário. Que os "Um Dois Três de Oliveira Quatro" da vida se encham de orgulho e que os Brunos Freitas e as Anas Fernandes corram pro cartório pra mudar seu nome pra, sei lá, Se7e Belo.  Pra que você entre no google, ponha seu nome e veja milhares de informações relevantíssimas sobre VOCÊ, ser único e insubstituível e... opa, calma aí, tão dizendo aqui que sou engenheiro químico........

MALDITO SEJA, HOMÔNIMO PAI!

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Aftershocks: Retorno

Acabo de chegar em casa. No aeroporto, a única coisa estranha foi ver o cara na minha frente ter a bagagem completamente aberta e revistada, enquanto a mim só me perguntaram se o telefone que eu tinha escrito no formulário da alfândega era da universidade. Eu respondi: "Não, é meu celular" e o cara me deixou passar sem pestanejar. Me senti acolhido, me senti diferente dos outros estrangeiros que tiveram que pegar filas diferentes e dar detalhes sobre sua bagagem. Por isso digo que acabo de chegar em casa.
Os trens estavam cheios, como sempre. Vim pelo caminho mais longo pra pagar menos. No fim das contas a diferença de preço é tão pequena que me senti pirangueiro. Nos trens, a única coisa diferente foi ver anúncios no visor sobre quais linhas não estavam funcionando por conta de blecaute e/ou terremoto. Nenhuma das linhas grandes, nenhuma das minhas linhas foi afetada ainda bem. Depois de passar 1 mês em Recife, é estranho voltar pra um lugar tão diferente, e saber o caminho de cor, sem pestanejar nem uma vez. Por isso digo que acabo de chegar em casa.
Depois de 3 trens e táxi, foi impossível não segurar um sorriso quando vislumbrei a porta de soshigaya. Imaginar a cara dos meus amigos, olhar de novo pelo vidro da cafeteria (cafofa, para os íntimos) à procura de alguém conhecido. Chequei novamente se eu lembrava a senha da minha caixa de correio. Estavam lá no lounge. Kaori, Maurício, Maha e Kaveh, os bravos que não tinham abandonado o barco. Meus heróis. Trouxe nego bom pra eles. Sentamos e assistimos "Synecdoche, New York" (recomendo). Eu já tinha visto, mas não importa, eu vejo de novo. Afasta meus fantasmas. Por isso digo que acabo de chegar em casa.
E meu quarto me recebeu bem. Estranho foi estar arrumado. Acho que Kaori deve ter passado por aqui e dado uma ajeitadinha. Amanhã tudo recomeça. Agora eu só preciso dormir. Estou muito cansado, sabem, é que acabei de chegar em casa.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011